Chegada a Jerusalém, dezembro de 2020
Cheguei hoje em Jerusalém, dia 15 de dezembro de 2020.
Minha primeira ação foi de peregrinação. Fiz a Via Dolorosa. 14 estações, do flagelo e condenação até o Santo Sepulcro.
É emocionante fazer cada passo e meditar no que aconteceu em cada momento.
Ponto a ponto, recordar e meditar no que Jesus passou em suas horas finais.
Mas é necessário fazer abstração das lojas, do barulho, do ambiente não cristão e dos exageros de decoração das igrejas cristãs (velas, disputas entre denominações, competições arquitetônicas medievais) e se concentrar no que aconteceu naquelas ruas (embora não sejam, exatamente, as ruas por onde Jesus passou, pois o traçado da cidade mudou muito nos últimos 2 mil anos; o importante é o que aconteceu bem próximo daquelas vias).
Um aspecto que não temos ideia sem conhecer a topografia do lugar: o percurso todo, de uns 600 m, começa com uma descida (da antiga Fortaleza Antônia até a estação 5); por causa da pequena ladeira Jesus cai, de cansado; e depois sobe até o Gólgota, à época fora dos muros da cidade; quando Simão, o cireneu, pega a Cruz de Jesus para ajudar a levar, estamos no começo da subida; Jesus tinha caído, extenuado, e não conseguiria subir até o Gólgota, talvez uns 400 m; por isso os romanos pegam o cireneu para completar o trajeto. Segundo a tradição, Veronica enxuga o rosto de Jesus (não há relato bíblico, mas certamente uma das mulheres que o acompanhavam teve compaixão e quis aliviá-lo limpando seu rosto de sangue e suor).
Cireneu e Verônica representam a humanidade que "tem compaixão de Jesus" em seu sofrimento, isto é, compreendem a dor que Ele passou e se movem para aliviá-lo. O que seria isso hoje? Ter misericórdia do sofrimento e da cruz dos irmãos e ajudá-los equivale a "levar a própria cruz e a cruz uns dos outros", e enxugar o rosto dos que sofrem: "cada vez que... a mim o fizestes".
A ânsia religiosa da humanidade "polui" a mensagem e a Presença de Deus. O homem quer encher a simplicidade e a poderosa presença de Deus com basílicas, templos, decorações, doutrinas, liturgias, teologias, disputas, vaidades etc. Poluição...
Deus É poderoso em sua simplicidade e mensagem. Isso fica muito evidente em Jerusalém. Bastava o silêncio e a contemplação, mas enchem tudo de construções e decorações que muitas vezes distraem e afastam do verdadeiro sentido do sacrifício de Jesus.
Um passeio pela cidade antiga de Jerusalém é uma viagem por 2.500 anos e 4 civilizações dentro de suas muralhas, passando pelos 4 setores: muçulmano, cristão, armênio e judeu. São essas as 4 civilizações que ali vivem hoje, além das que já deixaram sua marca ao longo dos séculos, fisicamente visíveis na arquitetura: gregos, romanos, bizantinos, otomanos (as muralhas de Suleiman, o Magnífico). Incrível ver como ver como se passa de um universo humano a outro, em questão de metros e ruas.
Pelas portas de Herodes, Damasco e dos Leões entra-se no bairro muçulmano. Muito movimento, feira, árabes falando e milhares de turistas. Por ele, há acesso ao antigo Monte do Templo (Har haBeit, הר הבית, literalmente “Monte da Casa” – de Deus, também conhecido como Har haMishkan, “Monte da Presença” – de Deus). Os muçulmanos o chamam de Al Haram Al Sharif, الحرم الشريف, “Nobre Santuário”. Ali estão a Mesquita de Al Aqsa (Al Masjid Al Aqsa, ٱلْمَسْجِد ٱلْأَقْصَىٰ, literalmente “a mesquita mais distante”) e o Domo da Rocha (Kubat Al Sachra, قبة الصخرة), de arquitetura cristã bizantina e cerâmica armênia.
Ali, no monte Moriá, Abraão iria sacrificar Isaque, em prova de fé, mas Deus, satisfeito, o impediu. Ali estava o Templo Sagrado (Beit haMikdash, בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, literalmente “Casa Santa”) construído por Salomão, destruído pelos babilônicos (Nabucodonosor II), reconstruído por Neemias, embelezado por Herodes, o Grande, e destruído pelos Romanos (Tito) em 70 d.C., realizando a profecia de que não ficaria "pedra sobre pedra"). A rigor, somente sobreviveram as pedras do “Muro Ocidental”, tornado “Muro das Lamentações” (haKotel ha Maaravi, הַכּוֹתֶל הַמַּעֲרָבִי). Os judeus ultrarreligiosos querem reconstruir o 3o. Templo, para a vinda do Messias.
No Muro das Lamentações, fiz uma oração e uma leitura bíblica, como sempre faço ao visitar ali. Pela primeira vez, não coloquei pedido de oração em papel, porque agora moro em Jerusalém e poderei ir ali quantas vezes quiser. Masa oração sempre foi forte, ali. E o trecho da liturgia que abri, ao acaso foi o de “Avinu Malqueinu”!...
Para ali Mohammed teria sido transportado desde Meca, voando no cavalo alado Buraq, que ficou amarrado no Muro Ocidental, e dali teria viajado até o sétimo céu levado pelo anjo Gabriel. Segundo a tradição, as primeiras orações do Islã eram feitas voltadas para este lugar, até que, 17 meses depois do início dessa prática, Allah teria orientado a se voltarem para a Kaaba, em Meca.
Somente muçulmantos podem ingressar neste lugar. Outros, dependendo da nacionalidade e religião, podem conseguir acesso via entrada especial pelo Kotel (porta marroquina).
Passa-se do bairro muçulmano, sem transição, para o bairro cristão, que é bem ocidental (europeu). Vêem-se cruzes, igrejas, cafés e restaurantes, árvore de Natal e até o Papai Noel americano, que parece um ET nessa cidade santa. Os Cruzados acamparam ali perto, fora da cidade, e ali ficam os patriarcados.
Depois da Porta de Jafa, o bairro armênio, também cristão, com belas cerâmicas.
Em seguida, a Porta de Sião, início do bairro judeu. Do lado de fora, o cenáculo (segundo a tradição, lugar da Santa Ceia, mas provavelmente não foi ali).
Retoma-se o setor muçulmano para ir até a Porta dos Leões, de frente para o Monte das Oliveiras. Atravessa-se o vale do Cedron e, ao pé do Monte das Oliveiras, o Getsêmane, onde Jesus foi preso.
No Monte das Oliveiras, meu lugar preferido do Planeta, olhando a cidade e a Esplanada do Templo, sempre contemplo, medito, faço orações e leio a Palavra. Li Apocalipse, o Alfa e o Ômega. E ouvi o cântico “Oh Alfa, Ômega, Cristo, Filho, Mestre, oh vem, oh vem, Senhor Jesus!”
Tudo aconteceu e vai voltar a acontecer ali, entre o Monte das Oliveiras, o Cedron e especialmente na Esplanada do Templo. O retorno do Cristo, o Juízo Final e a Nova Jerusalém.
Pensando “quanticamente”, nas várias dimensões, isso acontecerá na lógica da dimensão atual que estamos, porque há várias dimensões que se cruzam em todos os lugares e tempos, mas mais ainda, creio, neste lugar. Dimensões de espaço, tempo, espiritualidade, poder terreno e espiritual, entendimento e desentendimento, paz e guerra, amor e ódio, tudo isso.
Inclusive geologicamente. Aqui há uma falha geológica importante, a sírio-africana (do Iemen até a Síria), placas africana, árabe e turca, que causa terremotos. Um amigo me disse que eu ia estar no centro da falha geológica da geopolítica mundial. Concordei e acrescentei: aqui se chocam as placas tectônicas da História, da religião, da espiritualidade, do espaço-tempo etc.
Mas é preciso se esforçar para buscar a Jesus aqui, porque é difícil encontrá-lO por aqui, como em quase todo o mundo. Há muita "poluição religiosa", não somente de outras religiões, mas do próprio cristianismo, com suas disputas por basílicas e espaços, suas decorações exageradas, o aspecto lúgubre do Santo Sepulcro, além das feiras e do barulho da cidade. É preciso mesmo estar em espírito e clima de meditação e contemplação, para ter consciência dos passos de Jesus aqui. Mas quem procura, acha, Ele prometeu...
Mas, como Ana Paula, minha esposa querida, sempre lembra, o Reino de Deus está em nós, e nós é que somos o Templo do Espírito. Deus vai até nós em qualquer lugar do mundo, não precisa vir aqui para estar com Ele. Não é fácil encontrá-lO no meio dessa poluição religiosa, política e comercial daqui... Mas vale a pena buscá-lO por essas ruas e colinas daqui, isso vale.
É muito interessante ver os rostos dos moradores de Jerusalém, especialmente do setor árabe. São rostos brasileiros. Principalmente nordestinos. Vi sósias de pessoas que conhecia. São tranquilamente pernambucanos, paraibanos, potiguares. Os velhos são os velhos do interior do Nordeste, as mulheres e meninas com olhos e rostos lindos e bem maquiados, escondidos elegantemente pelos écharpes e foulards, as crianças, muitas crianças, parecem felizes, brincando o tempo todo livres, muitas saindo ou indo para a escola com seus uniformes. Uma cidade com muita vida.
Visitei hoje as escavações da Cidade de Davi, ao Sul do Monte do Templo. E aprendi que a Jerusalém bíblica não é a que todos imaginamos, a que fica ao Norte e a Leste do Monte do Templo. Graças aos trabalhos arqueológicos do Capitão Charles Warren, no século XIX, a mando da Rainha Vitória, foi descoberto que a Jerusalém bíblica se estendia na descida sul do Templo. Ali estavam as muralhas originais da cidade de Davi, as fontes de água que a abasteciam, as montanhas que as circundavam. Aquelas muralhas foram invadidas e destruídas pelos babilônicos e reconstruídas por Neemias e Esdras. Ali abrigavam-se profetas e todos os reis do Antigo Testamento. Ali foram encontrados artefatos que continham nomes bíblicos, flechas que mostravam o campo de batalha, madeiras queimadas de incêndios da cidade. A Jerusalém que costumamos achar que era a original era uma cidade posterior, mais plana, ao norte e leste do Templo, expandida por gregos, romanos, bizantinos, árabes e otomanos – os atuais muros de Suleiman, o Magnífico – e cristãos cruzados. A judaica se situava, de fato, na Cidade de Davi, projetando-se para o Sul, entre as montanhas, e tendo o Monte Moriá ao Norte, com o Templo de Salomão, restaurado por Esdras e Neemias, reconquistado pelos Macabeus e embelezado por Herodes, o Grande.
Onde está a Arca da Aliança? O maior tesouro arqueológico de todos os tempos? Segundo se acredita (eu entre eles), o jovem rei Josias, temente a Deus, após fazer importante reforma religiosa de retorno às raízes, e consciente da iminente invasão de Nabucodonosor, pouco antes de morrer na batalha de Megido, teria escondido a Arca para protegê-la da invasão e do saque que efetivamente seria realizado pelas tropas babilônicas, durante o reinado de seus filhos. Segundo o Midrash, ele teria cavado um compartimento sob o Templo e escondido ali a Arca (Yoma, 53 b). Outras versões, menos críveis, teriam dito que o próprio Salomão, séculos antes, teria aberto uma caverna perto do Mar Morto para o mesmo propósito, e que teria sido utilizada por Josias (Maimônides, Leis do Templo, 4: 1). Há ainda quem acredite que está na Etiópia, na cidade de Axum, em uma igreja (Santa Maria de Sião).
O dia 10 de Tevet (25 de dezembro, em 2020) foi trágico para a História de Israel. Nele, em 588 a.C., as tropas babilônicas de Nabucodonosor II estacionaram-se à frente das muralhas de Jerusalém e iniciaram um cerco de 18 meses, até sua invasão total e destruição do Templo. Dez anos antes, em 598 a.C., o rei despótico Jehoiakim (seu nome original era Eliakim, mas o faraó Neco trocou seu nome e o pôs no comando de Judá, para desgosto do povo e do profeta Jeremias), filho de Josias, havia-se rebelado contra a opressão babilônica – que se sucedia à opressão egípcia, a quem pagava pesados impostos. A cidade é cercada, Jehoiakim morre, sua rebelião é esmagada pelos babilônicos, causando a primeira leva de exilados. Seu filho e sucessor Joaquim (Jeconias), seus nobres e generais são levados cativos para a Babilônia um ano depois, 597 a.C.
E tirou dali todos os tesouros da casa do Senhor e os tesouros da casa do rei; e partiu todos os vasos de ouro, que fizera Salomão, rei de Israel, no templo do Senhor, como o Senhor tinha falado. E transportou a toda a Jerusalém como também a todos os príncipes, e a todos os homens valorosos, dez mil presos, e a todos os artífices e ferreiros; ninguém ficou senão o povo pobre da terra. Assim transportou Joaquim à babilônia; como também a mãe do rei, as mulheres do rei, os seus oficiais e os poderosos da terra levou presos de Jerusalém à babilônia. E todos os homens valentes, até sete mil, e artífices e ferreiros até mil, e todos os homens destros na guerra, a estes o rei de babilônia levou presos para babilônia. (II Reis 24:13-16)
O antecessor imediato de Jehoiakim, o rei Jeoacaz, seu irmão, havia tido a mesma atitude de rebeldia contra o faraó do Egito, Neco, que o levou cativo. O pai de Jehoiakim e Jeoacaz, o grande e piedoso rei Josias, fora morto na batalha de Megido contra os egípcios (609 a.C.), apesar da advertência destes de que não apresentasse resistência armada, visto que os inimigos não eram os judeus, mas os babilônicos.
Era o momento da confrontação entre as superpotências do mundo antigo, Egito, Assíria e Babilônia, com a balança pendendo para esta última desde a queda de Nínive, em 612 a.C. Judá estava justamente no meio geográfico do embate, ocupando importante posição estratégica e geopolítica. Da esfera egípcia e assíria, Judá cai para a esfera babilônica desde a vitória de Nabucodonosor II sobre Neco II, cerca de 605 a.C.
A invasão babilônica é finalmente parada no Egito, que não foi invadido. Esse fato teria animado o sucessor de Jehoiakim, seu tio Zedekiah, a novamente rebelar-se contra Nabucodonosor II, em 588 a.C. (dez anos depois do primeiro exílio), apesar das advertências em contrário do profeta Jeremias, que transmitia recado de Deus de que não opusessem resistência, mas se submetessem aos babilônicos. Os altos conselheiros e ministros de Zedekiah combateram Jeremias, humilhando-o e prendendo-o. A tragédia que se anunciava era evidente.
Jerusalém é sitiada por um grande exército multinacional – caldeus, sírios, moabitas, amonitas – comandados pelos babilônicos. Fome, peste, desespero, mortes nas ruas e casas são retratados pelo livro de Lamentações de Jeremias. No dia 9 de Tamuz, 586, após 18 meses de sítio, o portão Norte é derrubado. A população é massacrada. Um mês depôs, nos dias 7 a 9 de Av, a cidade é totalmente arrasada e incendiada, incluindo o palácio do rei e o Templo, destruído no dia 9. As muralhas são derrubadas na sequência.
Nova leva de exilados – Zedekiah e a elite social, religiosa e militar – é levada para a Babilônia, ao passo que o povo e o profeta Jeremias permanecem em Jerusalém. O Salmo 137 relata a dor dos exilados, a quem se lhes pedia que cantassem. Como cantar canções do Senhor lembrando-se de Sião em terra estranha? As referências sobre esses trágicos eventos estão relatados em II Reis 23-25, Jeremias, Lamentações, II Reis 25, Salmo 137. As escavações arqueológicas na Cidade de Davi trazem evidências materiais que comprovam esses eventos.
Quebraram mais, os caldeus, as colunas de cobre que estavam na casa do SENHOR, como também as bases e o mar de cobre que estavam na casa do SENHOR; e levaram o seu bronze para babilônia. Também tomaram as caldeiras, as pás, os apagadores, as colheres e todos os vasos de cobre, com que se ministrava. Também o capitão-da-guarda tomou os braseiros, e as bacias, o que era de ouro puro, em ouro e o que era de prata, em prata. As duas colunas, um mar, e as bases, que Salomão fizera para a casa do Senhor; o cobre de todos estes vasos não tinha peso. A altura de uma coluna era de dezoito côvados, e sobre ela havia um capitel de cobre, e de altura tinha o capitel três côvados; e a rede e as romãs em redor do capitel, tudo era de cobre; e semelhante a esta era a outra coluna com a rede. (II Reis 25:13-23)
Onde está a Arca da Aliança? Não há registro de seu traslado até a Babilônia, juntamente com os utensílios, os tesouros e os metais do Templo levados. Seria possível utilizar a radiologia de nêutrons, radiologia industrial, capaz de detectar falhas de estruturas, para também verificar a estrutura das ruínas ainda não escavadas? E daí verificar o que nelas está contido?
Quanto Jesus teria caminhado desde a Santa Ceia até a Cruz? Supondo que o Cenáculo se localizasse na parte alta de Jerusalém, bairro nobre, a caminhada até o Getsêmane é de mais ou menos um quilômetro. Ali Ele foi preso e levado para o Sumo Sacerdote Caifás, no Templo (entrando pelo Sul, cerca de oitocentos metros), segundo a tradição, no local onde hoje está a igreja São Pedro in Gallicantu. Ali Ele passou a noite, preso. No dia seguinte, foi levado a Pilatos, na fortaleza Antonia (quatrocentos metros). De lá até o Gólgota (Via Dolorosa), cerca de quinhentos metros. Ou seja, na noite em que foi traído, caminhou cerca de um quilômetro e oitocentos metros. No dia de sua morte, quase um quilômetro, dos quais cerca de metade levando a Cruz (numa parte do trajeto, trecho de subida até o Gólgota, Simão cireneu carregou a Cruz, pois Jesus não aguentava). Se, ainda, como relatado por Lucas (não há referência em Mateus), Pilatos o encaminhou a Herodes, teria caminhado mais seiscentos metros até o palácio do rei, no atual bairro armênio, perto da Porta de Jaffa e retornado à fortaleza Antonia (contando em dobro, portanto, mais um quilômetro e duzentos metros).
Comentários
Postar um comentário